Emergência, Cultura da Convergência e os vídeos mais populares do Youtube

Steven Johnson em seu livro Emergência: a Vida Integrada de Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares,  fala sobre o conceito de sistemas emergentes e suas aplicações. O conceito de Emergência pode ser entendido como um sistema colaborativo, onde muitos agentes constroem uma organização interna que não corresponde a um tipo de ordem, ou instrução externa que venha de um nível mais alto. Temos a capacidade de criar coletivamente, usufruir de uma inteligência coletiva para o nosso próprio benefício.  Cada vez mais conseguimos observar essa criação coletiva através dos espaços na interner como o Wikipédia9gag  os blogs e o Youtube.

O último, especialmente, se configura hoje em uma espécie de janela para a fama.  Muitos vídeos ficam famosos tornando as pessoas envolvidas espécies de celebridades instantâneas, que de uma hora para outra estão na mídia. Muitas vezes o vídeo inclusive migra para outras mídias como a televisão como é o caso de PC Siqueira e Felipe Neto que tinham canais no youtube e que devido ao número de acessos elevado dos programas foram contratados por emissoras de TV (MTV e MultiSHOW). Outras vezes, o vídeo permanece na rede, mas sofre mudanças feitas pelos próprios expectadores.

Neste ponto tocamos a questão da influência dos receptores sobre a mensagem e os emissores. Jenkins, em seu livro “Cultura da Convergência”, fala sobre a mistura entre o poder do produtor de mídia e o do consumidor, e da apropriação coletiva e popular onde são os consumidores que movem a circulação de conteúdos. No caso do Youtube além do fato de o site ser construído pelos próprios consumidores, os próprios consomem e modificam uns aos outros.

Um fato muito interessante que acontece com os vídeos famosos do Youtube é a criação de “remix”  e músicas feitas pelos próprios espectadores dos vídeos, que os modificam e produzem novos produtos audiovisuais que promovem paródias e assim por diante. Na maioria da vezes são cenas cotidianas nas pessoas, que com ou sem intenção acabam por virar grandes ícones da internet por um determinado período. Um exemplo é o antigo “Charlie bit my finger” (que confessamos, ainda nos faz rir) que mostra uma cena cotidiana de dois irmãozinhos. Por ser uma cena singela, verdadeira faz com que nos relacionemos com ela, afinal todos já passamos por algo parecido quando penenos. O vídeo gerou inclusive imitações que também foram bastante acessadas.

Outro exemplo mais recente de vídeo que virou remix foi o “Uma Estrela que brilha,brilha,brilha”. Algumas meninas resolvem fazer uma homenagem para a amiga que está fazendo 15 anos e uma delas começa a rir.

Dessa cena cômica surgiu o remix, que fez ainda mais sucesso.

Assim como esse vídeo existem muitos outros, por exemplo Double Rainbow e Bed Intruder, que são vídeos, o primeiro caseiro e o segundo de um telejornal, que foram remixados por um grupo de irmãos americanos que fazem de seus remix produções musicais mais sofisticadas.

No youtube tudo está conectado e todos são capacitados de interagir coma produção Audiovisual apresentada pelo site. Através do youtube, facebook e twitter, não só quem produz mas também quem consome esses produtos culturais pode influenciar as mídias e mudar o rumo desse produto.  A reapropriação dos vídeos por que os assiste se torna óbvia e atravessa as barreiras no próprio Youtube, chegando ao Facebook, Twitter, etc.

Dexter – Análise de acordo com as características de Jason Mittel

Dexter é baseado em uma série de livros de Jeff Lindsay e conta a história de um homem chamado Dexter Morgan. Quando criança, sofreu um trauma: viu sua mãe ser assassinada e ficou dentro de um container com ela e seu sange por dias, até ser achado pelo policial Harry, que o adotou. Cresceu com a filha do policial, Deb, que é a única pessoa que ele gosta. Charmoso, com um bom emprego e se dá bem com os filhos de sua namorada o faz um homem socialmente perfeito. E é isso que ele quer. Especialista forense em padrões de espalhamento de sangue da polícia de Miami, nas horas vagas persegue e mata assassinos que escaparam da justiça. Cheio de princípios, Harry ensinou a Dexter esse código: matar só quem já matou.

Durante as seis temporadas, perdeu sua esposa, matou o irmão, teve que criar um filho sozinho e correu atrás de assassinos e quase foi descoberto.

A cada temporada um serial killer novo aparece para intrigar Dexter.

 

6ª Temporada, Episódio 7 – “Nebraska” 

Propósito Unificado

Nesse episódio de Dexter, a história muda o rumo de sempre: ao invés de ele ficar na delegacia junto com a Deb e ajudá-la quando ela mais precisou, ele saiu para uma viagem atrás do filho do assassino Trinity( segunda temporada, morto por ele). No episódio anterior a esse, ele vê o irmão( que  também foi morto por ele na primeira temporada. Era o assassino do caminhão de gelo) e nesse ele vê o irmão em todos os lugares.  Normalmente, seria o pai, que ele vê como uma ajuda.

Dexter e Brian(Ice Truck Killer)

O irmão seria a parte escura de Dexter e o pai a luz. Por isso, nesse episódio, ao invés de ele ser uma pessoa mais sensata, ele acaba indo para o outro caminho.

Mas, ele acaba caindo em si e percebe o erro que foi escutar esse lado escuro e acabou encontrando de novo a luz – o pai ‘pegando carona’ com ele no fim do episódio.

Dexter e Harry

Fanatismo Forense

Dexter é uma série que vai muito além da resolução dos crimes do serial killer principal de cada temporada: o lado psicológico do personagem interfere em todos os crimes. Assim como Dexter quer encontrar o assassino por si próprio para fazer justiça com as próprias mãos, acaba acontecendo uma investigação paralela, e sendo assim,  ocorrendo histórias diferentes contribuindo para a resolução final da história.

Dexter e Brian

Diferente de séries como Lost, os fóruns de Dexter não são para desvendar os mistérios. As discussões que giram em torno desses é sobre o que aconteceu no último episódio e o porquê.

Tudo que acontece na série pode ter uma volta em outra temporada. Dois serial killers de outras temporadas, por exemplo, que ajudaram Dexter a enfrentar o seu lado escuro.

Dexter e Brian conversando sobre o lado escuro de Dexter

Filho do assassino Trinity, morto pelo Dexter na segunda temporada.

Complexidade narrativa e “estética operacional”

Dexter é um tipo de herói-psicopata: desde criança tem instintos de assassino, mas aprendeu a controlar isso graças ao código de seu pai adotivo Harry: matar só quem merece. Isso o ajuda a manter sua sanidade e não ser pego, já que ninguém vai sentir falta ou estranhar ao ver nos jornais um assassino morto.

Código do Harry

Ele guarda o sangue de suas vítimas em um pedaço de vidro de laboratório usados para análise de sangue e em uma caixa. Ele diz que são seus troféus. Aí percebemos que mais do que uma sede de vingança, Dexter tem seu lado psicopata muito evidente. Sua frieza ao matar, preparando todo o lugar com plástico para não deixar evidência nenhuma, acordar a vítima antes de matá-la, serrar os corpos e jogar no mar e ainda depois de tudo isso voltar para casa e cuidar de seu filho como se nada tivesse acontecido.

Estética da Surpresa

Dexter do mal, do nada fazendo coisas sem sentido, como roubar uma arma e atirar em todos os lugares de uma cidade que ele nunca foi. Ir em frente para matar uma pessoa sem ao menos ter certeza de que se trata de um assassino, o que vai contra o ‘código’ instituído por Harry, seu pai. Matar um inocente, o dono do motel que queria dinheiro pelas suas facas.

Dexter

Tudo isso é uma surpresa para quem assiste Dexter desde a primeira temporada. O cara que sempre se mostrou bom, educado, dedicado ao trabalho, preocupado com sua irmã, com um código que não permite matar pessoas que sejam inocentes, de repente se torna uma pessoa incontrolável cheio de desejo de um assassino comum.

Promo Season 6

17º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil

O 17º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, mudou nessa edição incorporando, além de obras de videoarte, outras linguagens multimídias ccomo fotografia, instalações e pinturas, reunindo 101 artistas.

A obra que mais chamou atenção foi a de Theo Craveiro – The Vanish. De um jeito intrigantes e um pouco repulsivo, ela nos faz lembrar um destino inevitável para todas as pessoas e coisas: tudo morre. São 120 laranjas que compõe essa obra um tanto quanto perturbadora. Colocadas em um vidro, através de espelhos ele nos faz refletir, quando a luz acende vemos as laranjas já em um estágio avançado, nos mostrando o envelhecimento natural de todas as coisas vivas.

Venish, 2010; Theo Craveiro (Brasil - SP, 1983)

O que me fez pensar ao ver essa obra também é a questão não só de ter um ciclo de vida, mas a vaidade humana. Uma hora, o que era jovem e bonito, acaba e se transforma em algo não tão chamativo.

Theo Craveiro (Brasil - SP, 1983)

“Vanish is a mirror box where sometimes a light turns on to reveal what’s inside. For a few seconds we can glimpse what is hidden: a bunch of oranges in different stages of ripeness. Some of them are still green, while others are really rotten. It may initially seem to be a process of death and decay, but in fact it is a live colony of fungi, with different colors and pigments. Life and death are the two sides of the same coin. Outside we have a perfect and timeless form, while inside there is a living process of matter transforming and vanishing. This antagonism is recurrent in the history of human thinking, whether in the dualism of Plato and Spinoza, modern and postmodern, or Minimalism and Art Povera.” by Theo Craveiro

Outra obra que não pode ser deixada de lado, é a Bronze Revirado, do mineiro Pablo Lobato é um curto vídeo que registra os bastidores das badaladas do sino de uma igreja em São João Del Rey, Minas Gerais.

A imagem, com um tamanho próximo do real e a tela se localiza entre dias paredes pretas, dando uma sensação de claustrofobia pra quem está vendo a obra.A aflição cada vez maior de que um dos meninos seja atingido pelos sinos causa uma tensão tão grande no expectador e é impossível simplismente passar por ela. O som alto ajuda a dar a sensação de incômodo e agonia.
Para quem está ali observando, ficar parado é quase impossível. Junto ao movimento do sino, a vontade de ir para baixo toda vez é constante. Uma obra pra muito movimento, agitação e tensão.

Sesc_videobrasil11

O 17º Festival Internacional de Arte comtemporânea sesc_videobrasil está recheada de obras de arte que variam entre pintura, fotografias, instalações, videoinstalações e até mesmo obras impressas.Este ano o festival possui  o dinamarquês Olafur Eliasson (que tem como característica criar obras que nos faz pensar sobre o tempo, espaço e que é realmente real) como artista convidado, está exposta cerca de 10 de suas obras espalhadas pela Pinacoteca,  Sesc Pompéia e Belenzinho. Eu, particularmente só visitei a obra de Eliasson intitulada de “Sua Fogueira Cósmica” e obras de outros artistas que estão expostas no Sesc Belenzinho. Como o Eliasson é o artista convidado desta edição do Videobrasil, um

Cores projetadas: "Sua Fogueira Cósmica” (2011)- Olafur Eliasson

pouco antes da entrada para exposição há uma enorme sala escura, no centro se encontra uma grande cabeça de luz giratória, que projeta diversas cores na parede branca. Após certo tempo dentro da sala, percebemos que a luz só projeta, através de gelatinas, três tipos de cores: o vermelho, verde e azul e que cada uma dessas gelatinas giram em velocidade e “trilhos” diferentes,  isso faz com que quando elas se encontram, uma nova cor é projetada na parede. Essa obra de Eliasson brinca a nossa retina, já que as novas cores projetas não são de fato concretas, mas sim interpretadas pela nossa retina através da junção das gelatinas. A obra também nos passa uma sensação de vigilância e da conscientização de que fazemos parte da obra, já que nossa sombra também é projetada na parede.

  • “Bronze Revirado” (1976) – Pablo Lobato, MG, Brasil
O artista brasileiro Pablo Lobato, expôs sua obra “Bronze Revirado” logo no comecinho do espaço térreo do Videobrasil. O vídeo foi projetado em uma espécie de estrutura que lembra um tunel estreito. A projeção é de um sino de

A instalação no formato de túnel nos faz imergir na obra

uma igreja da cidade mineira São João del Rey, o vídeo começa com o sino parado e uma pessoa anônima faz um malabarismo, se equilabrando no parapeito, para dar início à badalação do enorme sino, isso dá origem a uma espécie de brincadeira: duas pessoas de cada vez vão até o sino e o impulsiona para que ele dê um giro de 360º e rapidamente têm que afastar o corpo para que a estrutura superior ao sino não os acerte. O ritmo se torna frenético e passa aos espectadores uma espécie de agonia cada vez que a estrutura está se aproximando dos “jogadores”. Na minha opinião, essa agônia é enfatizada devido à “arquitetura” de túnel no qual a obra foi estruturada, pois ela nos dá a impressão de que estamos de fato dentro da óbra numa espécie de fila para entrarmos nessa brincadeira.

  • “O instante Impossível [gotas e taça] (1979)  – Alexandre B, MG, Brasil
Neste obra, Alexandre B. expõe três objetos, uma garrada de água, uma de vinho e uma taça, podemos notar que a projeção é feita de forma arcaica, principalmente devido à caixa com aspecto artesanal que é de onde orgina a projeção. Cada garrafa é ligada à uma caixa de projeção por um fio que conduz o líquido como uma espécie de contagotas e podemos ver a gota projetada na parede “caindo” de cima para baixo. O artista faz uso da projeção invertida para quebrar as regras da gravidade.

Projeção das gotas caindo de cima para baixo

  • Orowa (1982) – Felipe Barros, AL/SP, Brasil

Particularmente, este foi o trabalho que mais me encantou devido a simplicidade e a originalidade que o artista conseguiu captar. Em uma tela simples era projetado um vídeo que, a princípio, parecia conter formas abstratas, mas

Imagem das dobras da camisa do maestro

quando começa o áudio de uma orquestra e as imagens abstratas vão “dançando” com a música, você se dá conta o artista gravou as costas de um maestro regendo uma orquestra e que as formas abstratas são as “ondinhas” que a camisa faz devido ao movimento dos braços do maestro. Ao ver essa obra, eu tive a impressão de que a roupa do maestro criou vida.

Projeto Olhares e Algumas Referências

O Projeto Olhares se trata de uma vídeo instalação que tem como objetivo gerar algumas possíveis reflexões no visitante quanto à questões do preconceito. A instalação é composta de três salas por onde o visitante passará, assistirá a vídeos e passará por alguns processos de interação, onde escolherá caminhos para os personagens ou se manterá inerte, sem interferir em nada. O grande ponto de Olhares é realmente esse lado voyer do ser humano, que quando observa uma situação se sente apto a participar de certa forma ou não.

Para o projeto como um todo e para acada sala utilizamos de algumas referências de obras já feitas anteriormente, sendo elas não só instalações, mas também obras de outras mídias. A maior delas seria talvez “6 bilhões de outros” de Yann Arthus-Bertrand, uma vídeo exposição onde o foco é fazer as pessoas serem realmente vistas. Ao entrar, o visitante poderia ver, um mosaico de  retratos, que é o símbolo do projeto, o qual nos chamou muito a atenção para criar um sentido estético para Olhares.  Ao londo do tempo alguns desses rostos do mosaico, que estavam em uma massa uniforme, se podemos assim dizer,  aumentam e a pessoa começa a falar, chamando a atenção do visitante que é deixado levar pelas emoções daquelas pessoas que se estivessem em outro contexto não seriam levadas em conta. O que é um grande ponto chave de Olhares, pois visamos chamar a atenção do visitante para a vida e situação de pessoas que não teriam essa atenção se não fossem colocadas na frente do olhar do outro ser.

Essa questão do mosaico foi extremamente explorada na última sala de Olhares, que é realmente uma chuva de informação, mostrando várias pessoas rostos, sons, texto. Trabalhamos com vídeo mapping para dar uma sensação de profundidade e espacialidade, o que em “6 bilhões de outros” acontece pelo fato do visitante ser circundado pelas telas.

Ao fim da exposição de Yann Arthus-Bertrand, o público tem a opção de participar do projeto como as 5.600 pessoas entrevistadas, respondendo às 40 perguntas do questionário, através de web cam ou por escrito, em um dos quatro computadores existentes na exposição, e esse é outro ponto de encontro entre este e o Projeto Olhares pois o visitante pode ou não interagir com a obra, pode  ou não interferir de alguma forma no resultado final.

Na segunda sala do Projeto, trabalhamos com o preconceito social, abordando uma situação em que um ex-presidiário está em busca de um emprego. Para esta sala usamos de referência a obra O Prisioneiro da Grade de Ferro de Paulo Sacramento. O documentário sobre o sistema carcerário brasileiro e a falha do processo de ressocialização se baseia em auto-retratos dos próprios presos sobre si mesmos. O que faz enxergarmos a situação de maneira muitas vezes inusitada e criativa.

Esse documentário serviu de base para entendermos o que queriamos do personagem Matias é o ex-presidiário que mostramos na segunda sala. Também utilizamos o documentário como base estética da sala, onde trabalhamos um ambiente escuro, frio, e com elementos de ferro. Vendo os “depoimentos” do documentário, ficou mais fácil criar esse personagem da forma mais real possível, trazendo algumas camadas que vão além do senso comum que a sociedade tem sobre os detentos.

Uma terceira obra da qual utilizamos para construir um sentido estético e narrativo para Ollhares foi Étant Donnés de Marcel Duchamp, que consiste em uma instalação composta de uma portinha pequena que é a entrada de um cômodo pequeno e vazio onde não há janelas nem quadros. Na parede do fundo, embutida num portal de tijolos arrematado por um arco, há uma velha porta de madeira remendada e fechada por uma trave de madeira cravejada com grossos pregos, por onde o visitante não pode passar. Mas se ele se aproxima, descobre dois furos à altura dos olhos. Que se olhados revelam uma imagem tanto quanto perturbadora de uma mulher nua da qual não se vê o rosto, deitada em galhos segurando uma lamparina.

Novamente, é essa posição de voyer do espectador de nos chama a atenção. E, talvez, essa obra converse mais com a primeira sala pois não podemos controlar de fato o que acontece. A grande questão de Étant Donnés não é somente a observação por ela mesma, e sim a observação inoscente que acaba nos relevado uma cena um tanto quanto chocante e polêmica para os padrões da época. Assim se mostra a primeira sala. Quando estamos “espiando” pensamos ter o controle da situação, mas Duchamp quebra com esse paradgima mostrando uma cena que não esperavamos ver. Quando na primeira sala de Olhares é revelado que a mãe que você escolhe para adotar o menino orfão é de fato transexual, isso foge de nosso controle e entra em uma questão polêmica e chocante, para alguns, totalmente atual.

Utilizamos outras obras como referência para construirmos o projeto como, Videocabines são caixas pretas (Sandra Kogut), Tempo de Matar (Joel Schumacher), Má Educação (Almodovar), Parangolé (Hélio Oiticica), e muitas outras. O objetivo do projeto é em suma criar algum tipo de reflexão no visitante, utilizando de vários tipos de narrativa e mídias.

Emergência, Internet e Vida Cotidiana

Steven Johnson em seu livro Emergência: a Vida Integrada de Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares,  fala sobre o conceito de sistemas emergentes e suas aplicações. O conceito de Emergência pode ser entendido como um sistema colaborativo, onde muitos agentes constroem uma organização interna que não corresponde a um tipo de ordem, ou instrução externa que venha de um nível mais alto. Como se a organização interna dos microcósmos gerassem uma reação visível no macrocósmos. O sistema emergente possui um tipo de organização que chamam bottom-up ou seja “de baixo para cima” e não top-down “de cima para baixo”.

Pensando nesse conceito de sistemas emergentes, podemos observar sua aplicação na própria vivencia humana no coletivo, que por muitas vezes apresenta esse tipo de organização. Ao observarmos microcosmos como a organização familiar, um ambiente de trabalho, ou uma sala de aula, conseguimos perceber algumas características da Emergência. Um exemplo disso é  a dinâmica matinal de uma fámilia. Quem toma banho primeiro, quem sai, quem fica…  Tudo acontece quase sempre em uma sintonia que não é forçada, apenas acontece naturalmente por ser funcional para todos os membros daquele grupo.

Neste caso o sistema emergente se atém a permanecer no microcósmos familiar, e não tem um resultado aparente no macrocosmos em que essa família está inserida. Mas se observarmos os locais públicos podemos ver como os sistemas emergentes acontecem a todo tempo. Tomemos como exemplo a praia. A praia é um lugar público onde todos podem entrar, ricos, pobres, negros, brancos  amarelos, vermelhos, bonitos ou feios, mas por um motivo inexplicável nos organizamos de maneira que nos dividimos em grupos,  de acordo com classes sociais, casados e solteiros, liberais e caretas, é incrivel como a praia tem o poder de se auto-gerir sem que precisemos de nenhuma ordem que nos faça agir “assim” ou “assado” é simplesmente natural. Somos capazes de reconhecer padrões e internaliza-los, aprendê-los.

Temos a capacidade de criar coletivamente, usufruir de uma inteligência coletiva para o nosso próprio benefício.  Com o advento da internet, cada vez mais  esse sistema de colaboração entre pessoas e de detecção de padrões tem sido utilizado e observado. Estamos em uma fase de criação de sistemas emergentes artificiais.  Obviamente a internet não é livre de regras, ao contrário, existe um crescente gerenciamento de dados que controla o conteúdo. Porém existem muitos sites de criação coletiva, onde os próprios usuários criam o conteúdo que consomem. Exemplos disso são o Youtube, Wikipédia, 9gag e claro os blogs.

Estes são dispositivos que utilizam de uma inteligência coletiva para criar e se aperfeiçoar ao longo do tempo. E transformam o olhar das pessoas que começam a querer, mais e mais, ter algum tipo de influência considerável naquilo que assistem, leem, escutam, consomem e vivenciam. Por mais que o conceito de Emergência possa parecer simples, quando aplicado a objetos, dispositivos, grupos, etc, a questão da auto-gestão se torna bem complexa, cada vez mais construimos sistemas que conseguem ler padrões (como o Amazon.com) “aprendê-los”,  aperfeiçoá-los e modificá-los.

Quando pensamos como possibilidade real, todas as áreas da nossa vida sendo auto-geridas num sistema bottom-up, pensamos logo no total e completo caos. Temos a necessidade de ter pelo menos um vislumbre da segurança de uma autoridade, um comando ou uma organização vinda de cima. O modelo de sistema top-down ainda é predominante. Mas cada vez mais a sociedade caminha para sistemas mais livres de auto-gerenciamento. Se isso é melhor ou pior, bom ou mau, não temos como saber. A única coisa que podemos fazer é filtrar o que julgamos ser bom ou mau para nós e usufruir das novas possibilidades.

Room 666 e o “fim” do cinema

Em 1982 o cineasta Wim Wenders lança o média metragem “Room 666″ onde reune vários colegas de profissão em um quarto de hotel para discutir os possíveis rumos que o cinema poderia tomar no futuro. Com a televisão extremamente bem estruturada com um alcance global e o advento do vídeo, muitos cineastas não se mostravam muito otimistas quanto ao futuro da sétima arte.

O documentário não tem a presença de um entrevistador ou mesmo um operador de câmera, os entrevistados estão sozinhos, ligam a câmera e o gravador de som, leem as perguntas que estam em uma folha e as respondem para a câmera ou talvez para eles mesmos em um processo de reflexão um tanto quanto pessoal.

A maioria dos depoimentos, inclusive de cineastas brasileiros como Ana Carolina, eram pessimistas de forma que consideravam as novas tecnologias mais como uma ameaça a linguagem cinematográfica instaurada do que como uma nova possibilidade para os que querem fazer cinema. Poucos foram os que mostravam uma posição positiva quanto às “novas mídias”

Um exemplo é a opinião de Herzog que não vê um futuro decadente para o cinema. Para ele  o cinema continuará existindo pois é ele que ”nos faz sentir”.  Ao mesmo tempo também traz a televisão ao discurso, a comparando com uma Juke Box,  algo que podemos manipular. Assim renega toda e qualquer possibilidade de fazer arte na televisão a segregando completamente do cinema, posição da qual Godard também usufrui.

Spielberg também não vê com maus olhos as novas possibilidades de tecnologias para se fazer cinema, mas tráz à discução a questão de Hollywood e a comercialização do cinema. O que ele diz empobrecer cada vez mais as narrativas, fazendo o cinema tratar de  histórias banais ao invés de histórias mais humanas, pessoais e subjetivas.

O mais interessante deste documentário é a divergência na opinião de cada um dos cineastas, a respeito do que é arte e não é, o que é cinema e não é.  Enquanto alguns são puristas e de certa forma preconceituosos com o surgimento do vídeo, outros já o enxergavam como o futuro do cinema e se mostravam dispostos a abraçar novos tipos de narrativa possibilitados por ele. Wim Wenders através da compilação de diversas opiniões conseguiu mostrar as dificuldades de aceitação de novas tecnologias quando estamos lidando com produção artística, e o grande “medo” que temos de que o novo substitua o velho quando este pode enriquece-lo ainda mais.

Room 666 (veja o filme aqui)